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Entrevista concedida para revista Bem-Estar
São José do Rio Preto, 21 de setembro de 2008 |
Jornalista: Renata Fernandes
Uma semana. Esse é o tempo necessário para que seja aplicado um método que promete desenvolver a habilidade de se relacionar intimamente consigo, ter autoconsciência, auto-estima e autoconfiança. É o Processo Hoffman da Quadrinidade, método desenvolvido pelo Instituto Hoffman, uma organização não-governamental com sede nos Estados Unidos e filiais espalhadas pelo mundo, inclusive no Brasil. Destinado a quem busca autoconhecimento e crescimento pessoal, o processo Hoffman também é apropriado àqueles que precisam descobrir quais as razões que os fazem resistir às mudanças. Segundo o diretor terapêutico do Instituto Hoffman do Brasil, Jaime Maciel Bertolino, professor pós-graduado em Psicologia da Educação pela PUC de Minas Gerais, o objetivo do processo Hoffman é harmonizar os quatro aspectos do ser humano. Ele afirma que o processo combina diversas técnicas terapêuticas e se dedica a despertar as pessoas para a extraordinária e poderosa fonte de amor que cada um tem dentro de si. Para conhecer e entender como funciona o método, confira a entrevista a seguir:
Bem-Estar - O que é o Processo Hoffman da Quadrinidade? Para que serve, como funciona e qual a indicação?
Jaime Bertolino - Bom, vamos começar por quem criou o processo, há 41 anos, Robert Hoffman. Por isso, o método leva o nome dele. O processo foi criado na década de 1960, entre 66 e 67, no boom do humanismo, no meio de uma mudança de enfoque na abordagem sobre o que é o ser humano. Saiu-se de uma perspectiva em que somente o terapeuta, o profissional, atuava diante do paciente, cliente e/ou aluno. Criou-se a possibilidade de ambos interagirem e atuarem como agente transformador. Então, nesse processo, no início desse trabalho quadrinidade pressupõe o que entendemos como os quatro aspectos do ser humano.
Bem-Estar - Quais são esses quatro aspectos?
Bertolino - Físico, emocional, intelectual e essencial. O aspecto físico é o que nos presentifica nesse tempo, que nos dá a habilidade de viver experiências e também expressa o que temos internamente. O emocional é a percepção de nossos sentimentos e emoções. Nossos pensamentos e a forma de abstrair e decodificar o mundo são o aspecto intelectual. Enquanto o essencial é o espiritual, o qual chamamos de essência - o ponto mais nuclear do ser humano. O espiritual é nossa dimensão divina, que também é um manancial de amor. Esse aspecto espiritual independe de religião, o processo Hoffman não é um trabalho religioso. O caminho e a forma dogmática ou doutrinária de cada um é livre.
Bem-Estar - Qual o objetivo do Processo Hoffman da Quadrinidade?
Bertolino - Alinhar esses quatro aspectos do ser humano. É como se fosse um processo educativo de continuidade, de alinhavamento das experiências vividas. É um trabalho autobiográfico que nos dá a possibilidade e a dimensão de olhar para toda nossa trajetória histórica. Enquanto criança, por exemplo, temos a necessidade de nos reportar ou nos referenciar ao ser humano adulto, que geralmente são nossos pais. Eles são as figuras referenciais que nos recebem, apresentam e preparam para estarmos no mundo. Toda essa educação é passada para o humano novo, à criança, que aprende como sendo verdade tudo o que lhe passam. Isso dá à criança condições de estar no mundo. Perfeito. Durante um tempo, enquanto somos dependentes naturais, isso acontece, mas enquanto adultos precisamos nos apropriar dessa história.
Bem-Estar - E como fazer isso?
Bertolino - Primeiro, saber o que se passou, perceber que há muito do que aprendemos nesse sistema que são crenças, muitas vezes crenças impeditivas. Crenças que nos impedem autenticidade, autonomia e até de expressar aquilo que sentimos. Muitas vezes no processo educacional aprendemos a não expressar o que sentimos e assim guardamos nossos sentimentos. Temos um aprendizado distorcido de emoções como raiva, tristeza, alegria, medo, dor. Temos, inclusive, um aprendizado por gênero dessas emoções: o que é ensinado ao homem não é ensinado à mulher. Tanto que, culturalmente, os homens não podem chorar ou se choram não merecem a virilidade masculina. São mandatos sutis e os chamo de mandatos impeditivos.
Bem-Estar - Como funciona o processo Hoffman?
Bertolino - O processo funciona muito na busca do interno. Aliás, uma pessoa quando busca o processo já despertou sobre essa possibilidade de o interno realmente ser o grande mobilizador de uma transformação. Ao participar do processo o indivíduo busca esse autoconhecimento, que é o voltar para dentro, que é o ponto fundamental onde está o nosso manancial de recursos.
Bem-Estar - O método aplicado pelo Instituto Hoffman ocorre em oito dias, em regime intensivo, e lida especificamente com a resolução de questões emocionais, entre outros. Enquanto a pessoa está no curso aprende o que deve ser feito, mas depois tem de aplicar o que aprendeu no dia-a-dia. Todos conseguem? O que sugere às pessoas que têm dificuldade em colocar em prática o que diz a teoria?
Bertolino - A experiência do processo é vivencial, a pessoa terá internamente, visceralmente, registrado nela a experiência de estar em lugares diferentes daqueles anteriormente aprendidos, não é uma teoria. A partir desse momento a pessoa tem uma responsabilidade enquanto adulto, então, muda-se o enfoque. Por exemplo, amadurecemos cronologicamente, muitas vezes intelectualmente, mas emocionalmente ainda ficamos em muitas perspectivas infantilizadas. Inclusive à espera de uma mágica, de que o fato de ter vivido uma experiência faça com que não precise mais me responsabilizar por minhas escolhas, acreditando que elas virão naturalmente, sem trabalho. E a perspectiva do adulto é diferente. O adulto precisa bancar as próprias escolhas e responsabilizar-se por elas. O objetivo do processo Hoffman é fazer a pessoa acessar, durante uma semana, esse lugar de amadurecimento pessoal, emocional, intelectual, espiritual e corporal. O fato de se ter competência para ler não implica ler todo livro que lhe chegar às mãos. É aí que entra a escolha, a escolha única, pessoal e intransferível. O mesmo ocorre com o processo Hoffman. Ao dar ouvidos às perspectivas infantis a pessoa se rebela e faz o que muitos fazem nesse percurso: têm conhecimento, mas não avançam com ele. Às vezes, o adulto quer o melhor para si, mas como é uma relação que passa pelo emocional, pela questão da autoridade, pela questão, muitas vezes, da coerção e opressão mesmo, há um bater de frente, numa ação contrária. No entanto, quando você assume o que quer e precisa aí é diferente.
Bem-Estar - O que é preciso ter para as pessoas assumirem o que desejam? Disciplina?
Bertolino - Disciplina é um dos critérios. Motivação é outro. Aliás, considero a motivação mais fundamental que a disciplina. Vamos pegar uma metáfora: se você tem respeito a você, respeito ao próximo e sabe que a vida é fundamental ao dirigir seu carro, esse respeito ao outro te faz cuidar da direção. Agora, se você acha que dirige melhor do que todo mundo, que pode fazer o que bem quer, aí surge a disciplina e a regra, que atuarão, nesse caso, mais do que a motivação interna. A motivação e o querer fazem com que a perspectiva adulta se mantenha ativa, muito mais do que a disciplina, que é um apoio, que vem junto.
Bem-Estar - Essa motivação tem de ser externa ou deve ser interna?
Bertolino - A motivação é um processo interno. Claro, há variáveis externas que fazem buscar e querer diferente, mas a motivação é você saber o que quer. Quando se fala do alinhamento da quadrinidade não quer dizer que seja um lugar onde você fala ‘fiquei alinhado na minha quadrinidade’, mas é uma atitude que se tem de autoconhecimento, de cuidado consigo mesmo, de autocompreensão, de autoconsciência e de amor-próprio. Como o ser humano não é linear, não vive numa linha, tem oscilações (e claro, isso faz parte inclusive do aprendizado da vida), é importante saber que dentro de mim há um centro que me torna responsável pelas coisas que escolho e a responsabilidade está nisso. Vai ser muito difícil, às vezes é até doido, mas muitas decisões e escolhas precisam ser feitas na vida. Assumir e saber que sou eu que as faço, que é a partir de mim que a vida segue; isso é manter a perspectiva adulta. É claro que dentro de um contexto isso facilita muito. O trabalho do processo Hoffman apresenta ferramentas para trabalhar tudo isso. É um espaço de educação continuada, então não é só viver o processo e pronto. Há de se considerar ainda que toda nossa história tem um abalo emocional na infância e tudo o mais tem um aprendizado que é condicionado e que é muito entrenhado, está preso e presente em nosso modo de ser. Interferir nesse movimento depende dessa atenção que é o caminho socrático: ‘conhece-te a ti mesmo’. Esse estado de atenção, de presença, pressupõe e nos faz entender que a própria dificuldade é um fortalecedor dessa continuidade. Os benefícios são grandes porque se terá autonomia, maturidade e compreensão. Esse conhecimento de si é muito grandioso.
Bem-Estar - O que é o Processo Hoffman da Quadrinidade? Para que serve, como funciona e qual a indicação?
Jaime Bertolino - Bom, vamos começar por quem criou o processo, há 41 anos, Robert Hoffman. Por isso, o método leva o nome dele. O processo foi criado na década de 1960, entre 66 e 67, no boom do humanismo, no meio de uma mudança de enfoque na abordagem sobre o que é o ser humano. Saiu-se de uma perspectiva em que somente o terapeuta, o profissional, atuava diante do paciente, cliente e/ou aluno. Criou-se a possibilidade de ambos interagirem e atuarem como agente transformador. Então, nesse processo, no início desse trabalho quadrinidade pressupõe o que entendemos como os quatro aspectos do ser humano.
Bem-Estar - Por que o autoconhecimento é o caminho do amor?
Bertolino - Vamos considerar que os seres humanos estejam aqui para aprender a amar. É preciso saber amar a si mesmo para amar o outro. E amar não é batatinha esparramando pelo chão não. Amar é ser responsável pelo próprio espaço vital, por minhas escolhas, relações, pelo que é levado adiante em termos de humanidade, já que somos todos pertencentes a esse grupo humano. Logo, se tenho cuidado comigo significa também ter cuidado com o outro, não um cuidado egoísta, mas de preservação de amor-próprio. Ao considerar o amor como alimento, essa é a nutrição mais grandiosa que as pessoas podem ter. O amor é muito mais do que essa questão homem - mulher, muito mais do que o amor erótico e é grandioso nesse sentido. Se não tenho, por exemplo, um bom trato com o meu emocional, ele não vai ficar aqui separadinho dentro de mim, vai interferir nas minhas relações - se não consigo dizer que me amo, para o outro muito menos. E é isso o que faz com que as pessoas confundam dependência com amor, ou possessividade com amor e assim seguem as distorções dessas emoções. Apesar de que o amor não é uma emoção é um estado, um estado amoroso. Somos seres de amor, que é a vida. Quando digo que somos seres de amor é porque viemos para a vida, toda a naturalidade e simplicidade nos levam a crescer e viver.
Bem-Estar - Por que a maioria não consegue perceber tudo isso? As pessoas se mantêm na perspectiva infantil que o senhor citou?
Bertolino - Infantil pressupõe ter um pai e uma mãe que façam tudo por nós. Assim, mesmo adultos, ficamos à espera do outro fazer por nós aquilo que é da nossa competência e ainda culpamos a terceiros por isso. Assim, ficamos nessa relação que passa pelo emocional infantil.
Bem-Estar - O mesmo ocorre para quem não consegue buscar autoconhecimento?
Bertolino - Não diria que não conseguem, mas que privilegiam outras formas de atuar. Algumas revistas mostram a vida dura de empresários que ao chegar no topo se sentem ou ficam sozinhos. Nesse momento costumam entrar em crise, ter estresse, depressão etc. Tanto que muitos ao resolverem se voltar à família percebem que ela já está toda desatrelada e desarticulada. Os homens, principalmente, percebem que os filhos já cresceram e eles nem viram como isso ocorreu. Só aí esses empresários fazem o percurso de voltar para si mesmos e se questionar: ‘onde, quando e como é que fiquei distante de mim mesmo’, ‘como consegui desenvolver essa competência extraordinária material, intelectual e profissional sem me lembrar de outros aspectos humanos que perpassavam tudo isso?’ Então, em algum momento a ficha cai. Por isso, acredito que seja uma questão de prioridade: o que tem priorizado em sua vida hoje?
Bem-Estar - Então, em algum momento todos vão cair em si em relação a isso, vão buscar o autoconhecimento?
Bertolino - Não posso afirmar isso. Mas geralmente, em algum momento, as pessoas sempre se deparam com a própria construção de história. O ideal é buscar o equilíbrio entre os aspectos da vida e se encontrar consigo verdadeiramente.
Bem-Estar - E quando a pessoa sabe que se encontrou verdadeiramente?
Bertolino - É uma busca com percepções muito pessoais. O autoconhecimento não é um lugar onde se ande 50 quilômetros e diga: ‘cheguei, estou pronto’. O autoconhecimento é uma atitude interna de construir movimentos. Ao ter essa atitude descubro e sei que estou num ponto de equilíbrio em mim. Mas sempre preciso me trabalhar para ampliar esse conhecimento e fortalecê-lo. Quanto mais me aproximo de mim, mais saudável se torna minha relação com o outro, esse é o sentido. Mais saudável não significa que todos os dias serão flores. Mais saudável significa ser mais verdadeiro, mais honesto, mais real, mais assertivo e mais presente.
Bem-Estar - Quem alcança o autoconhecimento e tem de lidar ou conviver com pessoas que não estão no mesmo patamar, o que fazer? É difícil perceber ou conviver com alguém, por exemplo, que se desconhece?
Bertolino - Não. Inclusive, um dos objetivos do processo Hoffman é o amor e quem ama acolhe. O objetivo não é criar visões, pelo contrário, é acolhimento. Por isso, há um limite em interferir no processo de conhecimento do outro, nas escolhas feitas pelo outro, a menos que seja solicitado a intervir. Mas até esse fato de não se envolver em questões que não são suas, o fato de não se misturar nessas questões, é uma referência interessante de amadurecimento.
Bem-Estar - A busca pelo autoconhecimento tem de ser um exercício contínuo?
Bertolino - Sim. Ao se manter condicionado no que sempre fez a pessoa fica numa situação confortável, entra numa zona de conforto e o externo todo comprova que é assim que funciona. Mas não é.
Bem-Estar - O que as pessoas devem fazer quando já se conhecem o suficiente para crescer profissionalmente, por exemplo, mas não encontram oportunidades?
Bertolino - Muitas vezes as oportunidades estão aí, mas também posso ajudar a criá-las; porque se eu ficar tão focado e tão brotado em certos comportamentos ou atitudes não perceberei o que ocorre em meu redor, não perceberei que posso ampliar meu leque. Essa é uma possibilidade de as oportunidades estarem ali e eu não perceber. Mas ao me voltar para esse trabalho interno posso não só perceber oportunidades que se apresentam como também criar novas. Ter assertividade, buscar mais, ter mais ousadia, motivação... colocar-me de forma diferente, variar minhas possibilidades de intervenção.
Bem-Estar - Como perceber a própria maturidade ou a de quem está próximo?
Bertolino - A questão do amadurecer passa pela assertividade em reconhecer a dignidade de quem fala, assim como a do interlocutor, respeitar esses dois lados, mas como já disse o nosso processo de educação, de construção da humanidade, nos limita. Viver de forma aberta e direta dentro da nossa educação é muito comprometedor. É como se a gente passasse por cima de outra pessoa, de uma forma sentimental/ emocional distorcida, porque as pessoas esperam condescendência e concessões de uma forma mais ampla. Exemplo de maturidade: Se eu disser para uma criança “você não sabe nada, você é burra”, ela se verá toda burra, irá acreditar nisso plenamente, pois é absoluta. Já o adulto sabe fazer distinções, perceber e relativizar essas questões. No entanto, se estou numa perspectiva infantil, quando o outro é assertivo ou franco comigo tenho uma leitura absoluta e isso me toca de forma emocional, como se fosse na própria criança e aí me retraio ou rebelo. O objetivo é sair dessa perspectiva infantil e crescer, me alinhar e aprender a dizer coisas de forma bacana, civilizada.
Bem-Estar - Qual a diferença entre as pessoas que participam do método Hoffman daquelas que fazem terapia há anos, já que, em princípio, ambos proporcionam autoconhecimento?
Bertolino - Primeiro não faz sentido fazer essa comparação. São caminhos diferentes que levam ao autoconhecimento, os dois seguem por estradas diferentes que levam ao mesmo ponto. É uma vivência emocional que se diferencia bastante. Quem faz terapia está em busca de si e pode ser que esse percurso para ela seja o mais adequado: perfeito. O fato de fazer terapia não impede a participação do processo Hoffman, apenas acrescenta, colabora com o processo interno de autoconhecimento. É um olhar diferenciado que permite maior responsabilidade pelas próprias escolhas.
Bem-Estar - O que é necessário ter para manter essa perspectiva adulta?
Bertolino - Amor-próprio, autocompreensão, disciplina, motivação, responsabilidade, presença, atenção, amor, compaixão, perdão, auto-estima, tem uma série de atributos, não uma numeração específica.
Bem-Estar - O esforço em se manter motivado não desgasta?
Bertolino - O desgaste se dá quando parece que é algo contra a vida. No momento em que você nasceu, optou pela vida. E ela segue, não vai parar para você aprender ou desaprender; sofrer ou ser feliz, para isso ou para aquilo. Não dá para ficar bem confortável, sem ter qualquer esforço, porque a vida não é assim. A vida vai seguir para te ajudar e é maravilhoso que seja assim. Quando há um desgaste é como se você estivesse muitas vezes lutando contra a corrente.
Bem-Estar - Por que mesmo quem aprende muitas vezes não coloca em prática?
Bertolino - Porque não se pode cristalizar a forma. Uma hipótese: estou conversando com você e morrendo de sede. Minha boca está seca, mas na minha mesa não há um copo de água. Logo, enquanto eu não sair daqui, levantar, ir até o filtro e pegar um copo de água o que tenho anteriormente é só uma informação intelectual da questão, falo com propriedade: estou com sede. Sei do cerne da questão que é sede, mas enquanto não me movimentar para buscar e tomar a água não resolverei o ‘problema’. O mesmo ocorre na vida. Você pode saber das coisas, mas é preciso dar o passo para alcançar o que deseja. Isso em relação a tudo, a água é apenas um exemplo.
Bem-Estar - Até que ponto vale a pena tentar ajudar alguém próximo a crescer emocional e espiritualmente?
Bertolino - A melhor forma de convencer alguém a modificar é se trabalhar, se conhecer. Quanto mais me trabalho e conheço mais ajudo o outro. Desejar converter alguém é natural. Quando gostamos de uma pessoa desejamos que ela também evolua. É igual quando assistimos a um filme legal e temos vontade de indicá-lo.
Bem-Estar - Nem todos têm condições financeiras para participar do Processo Hoffman da Quadrinidade. O que fazer?
Bertolino - É verdade. Assim como na terapia semanal nem todos têm condições financeiras. Mas não há obstáculo financeiro existente para a vontade real de crescimento, assim como não adianta ter todo o dinheiro do mundo se não houver essa vontade real de crescimento. Vou dar como exemplo algumas mulheres que são capazes de gastar um absurdo para colocar silicone, mas não fazem qualquer trabalho de autoconhecimento. Então, a questão não é só financeira.
Bem-Estar - Pode dar algumas dicas sobre como agir diante da vida, de um modo geral?
Bertolino - Como não temos uma escola que nos apresente o conhecer a ti mesmo, recomendo que as pessoas escrevam um diário. Isso é muito importante. Escrever em um diário não é dizer ‘meu querido diário... hoje o passarinho bateu asas e voou’, mas é usar esse espaço para refletir e colocar nele situações que mobilizaram, incomodaram ou criaram um estado que fez você se perder ou perceber que repete certos comportamentos. Escreva tudo o que mexe com você. À medida em que escreve, pode ter uma atitude semanal de ler tudo o que se passou em sua vida e assim ter um retrato, um perfil de como você olha o mundo. A partir disso, pode começar a observar de onde vem esse seu perfil e se questionar: Como é que aprendi isso? Como é que isso me garante? Por que preciso manter isso? E assim a pessoa vai se trabalhando, se percebendo, isso é um espelho. Outra dica é escrever sobre os próprios comportamentos e criar um plano ou estratégia para atuar de maneira diferente sobre eles. Quais possibilidades me proponho a fazer diferente do que fazia? Depois de um mês analise-se. Repense outras formas de atuar, falar ou agir. Somos muito rápidos em apontar para o outro o que ele tem de errado, nas relações amorosas principalmente. Aliás, geralmente está em nós o que apontamos no outro. E sacar isso é o pulo do gato. Para chegar nesse pulo do gato é preciso se observar. Você pode falar a partir do seu sentimento em vez de acusar o outro. |
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Jaime Maciel Bertolino, professor pós-graduado em Psicologia da Educação pela PUC de Minas Gerais e diretor terapêutico do Instituto Hoffman do Brasil. |
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